"Seu Moura", o General da Ecologia

  • Francisco de Moura
  • Seu Moura na Escola Agrícola
Conheci “Seu Moura” quando eu era proprietário do Restaurante Brito, ali na Conde Frontin. Durante anos, foi meu cliente diário, juntamente com a esposa, Dona Irce. Sempre eram os primeiros a chegar e já tinham a mesa reservada e toda a atenção da equipe de garçons. Às vezes, sua esposa chegava primeiro, mas sempre o esperava para degustar o “filezinho de frango”, preparado de modo especial. 

"Seu Moura", muitas vezes vinha de bicicleta. Apesar de não termos um local apropriado para guardá-la, ele tinha autorização para colocá-la onde achasse melhor: às vezes deixava no jardim, às vezes no corredor de entrada. A deferência ao “Seu Moura” decorria na profunda admiração que todos tinham por aquele que cuidou tão bem de nosso meio ambiente. Ele se preocupava inclusive com as duas palmeiras plantadas em dois grandes vasos centrais que havia no restaurante e chamava nossa atenção por qualquer descuido quanto ao correto aguamento. Em algumas ocasiões, quando se fez necessário, providenciou, ele próprio, a troca das plantas. 

Sempre muito discreto e falando baixo, uma vez me disse: “Fernando, tem um pessoal estranho fazendo umas medições lá no Viveiro...um pessoal do Estado. Acho que pretendem usar a área para outra atividade”. Prontamente procurei pela Inês Valezi do Jornal Semanário que fez uma providente publicação, o que certamente ajudou a evitar a instalação da FEBEM naquele pequeno paraíso ecológico.

Guardo muitas lembranças do querido casal: os cinzeiros feitos de material reciclável e uma coleção de CDs que me ofertaram para ambientar o restaurante na hora do almoço. Eles foram os únicos clientes ao qual comuniquei antecipadamente o fechamento do restaurante em 31.03.2006. Choramos juntos o final daquele ciclo. 

Pois bem, aqui vai uma pequena e breve homenagem àquele pequeno grande homem:  

Francisco de Moura, nasceu em Paraibuna(SP) em 21.03.1925. Filho de Estelita de Moura e Albertina Klein de Moura, o ambientalista iniciou sua carreira como inspetor de alunos na Escola Profissional, onde também foi mestre de agricultura. Naquela instituição conheceu e namorou a mulher que tanto amou e que viria ser sua esposa, a jovem Irce Nogueira. Casados, tiveram dois filhos: Sueli e Roberto

Em 82 anos de vida, “Seu Moura”, como era carinhosamente conhecido, dedicou grande parte deles à natureza, às plantas e, em especial, às árvores.

Na Escola Agrícola, planejou e criou um viveiro de mudas das mais variadas espécies de plantas e árvores que pretendia transportar para as praças, parques e escolas da cidade. Preocupava-se, ainda, com a adequada utilização daquelas que ornamentariam as ruas e calçadas, analisando o porte, o comportamento das raízes, a copa, a folhagem, a floração e os frutos destinados aos pássaros e animais. 

“Seu Moura” conhecia em profundidade o assunto: das mudas e plantas, declinava o nome da maioria delas apenas pela visualização de um detalhe do caule, folhagem ou flor. Citava ainda, o nome popular, o científico, a família e até onde encontrar a espécie no mundo.

Já no Viveiro Municipal fez inúmeras campanhas junto às diversas empresas locais. Numa delas, trocava latas das indústrias por plantas e árvores, algumas até adultas prontas para o plantio e ornamentação. Atendia, assim, ambas as partes: as indústrias que precisavam descartar as latas e o Viveiro que necessitava delas para fazer novos plantios.

Meu ilustre cliente gostava muito de conversar sobre seu projeto “Museu do Mundo”Depois de visitar o Horto Florestal do Rio de Janeiro, “Seu Moura” voltou entusiasmando querendo implantar a ideia no Viveiro Municipal. 

O projeto consistia não apenas em manter as árvores existentes no local, como também trazer outras espécies do mundo todo, por troca ou compra, com o único objetivo de preservar a espécie. 

Iniciou demarcando uma pequena estrada sinuosa que contornava uma pequena colina central da área do Viveiro. Subindo até o topo, lá sonhava construir um museu e seus setores administrativos que receberia e abrigaria visitantes em busca de contato com a natureza. Pelo caminho, planejava plantar as mais raras e curiosas espécies do planeta. 

Paralelamente, buscando representar os estados brasileiros, implantou artesanalmente no solo do mesmo morro, um desenho do mapa do Brasil, subdividido em Estados, onde seriam plantadas as espécies emblemáticas de cada um deles. Todo o contorno do mapa seria demarcado usando pequenos arbustos. 

Idealizava Jacareí sendo reconhecida como a "Cidade das Flores". Nossas praças, parques e inclusive as áreas particulares, receberiam muitas plantas e flores, especialmente as azaleias cor-de-rosa. 

Incentivador das campanhas que envolviam o meio-ambiente, “Seu Moura” distribuía mudas gratuitamente à população. Recebia, no Viveiro Municipal, sementes vindas dos mais longínquos lugares. As classificava e plantava, desenvolvendo canteiros com sementeiras matrizes para produzir grande número de mudas. 

Canteiros especiais também eram por ele cultivados, especialmente de rosas das mais variadas cores. Sempre que podia, ofertava suas rosas às mulheres que iam ao Viveiro conhecer as instalações e seus projetos. Periodicamente, em sua inseparável bicicleta, levava as flores para as secretárias da Prefeitura para que estas decorassem suas mesas e salas de trabalho.

Outro detalhe interessante em sua trajetória de vida: “Seu Moura”, durante trinta anos, coletou e mediu diariamente a precipitação das chuvas em nosso município. Por este trabalho, era constantemente procurado por construtoras e empreiteiras que procuravam sua orientação para melhor planejar suas obras. 

Antes de seu falecimento em 08 de junho de 2007, devido a sua dedicação e amor à natureza, “Seu Moura” foi agraciado com várias homenagens: em 1987 recebeu o título de cidadão jacareiense, projeto do vereador Mário Ney Ribeiro Daher. Tinha muito orgulho de haver recebido de uma ONG valeparaibana, a designação de “General da Ecologia”; em 1997, teve seu nome inserido no livro “Galeria dos Ecologistas” de João de Toledo Cabral: ali, Francisco de Moura, figurou ao lado de outro Chico: o renomado ecologista da Amazônia, Chico Mendes.

Seu nome está registrado na Praça Central do Prédio da Administração da Escola Agrícola e nos jardins do Escola João Feliciano. Aguarda-se, para breve, a nomeação do Viveiro Municipal, proposta feita pelo Deputado Marco Aurélio para a área que ainda pertence ao Estado de São Paulo.

Esta biografia é apenas uma singela homenagem ao ambientalista que, através de seu trabalho, idéias e sonhos, tentou transformar o espaço em que vivemos e, de quebra, deixou um legado na área ecológica que, com certeza, será herdado pelas futuras gerações. 


Fernando Romero Prado