Franz de Castro, um Servo de Deus

  • O jovem Franz de Castro
  • Rebelião em 1981
  • Padre Cândido diante do altar
  • Restos Mortais na Igreja em São José
  • Franz de Castro
O Brasil é um país laico onde as igrejas exercem uma forte influência sobre a população que, em sua maioria, diante de dificuldades, costuma apelar aos santos pedindo graças e milagres. Com a possibilidade aberta de o Brasil ter o seu segundo santo, para nós de Jacareí, nada melhor do que ter um representante da terra, já que o primeiro, Frei Galvão, também é do Vale do Paraíba. Dr. Franz, apesar de fluminense, atuou durante anos em terras jacareienses, mas, assim como muitos daqueles ainda encarnados, seus restos mortais também acabaram indo para São José, cidade onde passou seus últimos anos de vida. O Brasil, assim como Jacareí, realmente precisa de mais santos. Nada melhor, então, do que se espelhar nesse exemplo de humanidade.

BIOGRAFIA

Franz de Castro Holzwarth nasceu em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1942. Filho de Franz e Dinorah de Castro, tinha quatro irmãos. Seu pai era um mecânico que chegou ao Brasil na miséria em 1920, após a Primeira Guerra, passando a trabalhar em uma fábrica de fitas em Barra do Piraí. A família sempre foi muito católica,  ajudando, inclusive, a construir a Igreja de Santa Terezinha ao lado da casa onde moravam. Sua mãe, responsável pela religiosidade do filho, após passar anos em coma em decorrência de doença degenerativa, faleceu em 2010. 

Na infância, Franz era um garoto comum, mas desde cedo mostrava bondade em suas ações. Sempre muito ligado à caridade e amor ao próximo, assistia as missas diariamente. Chegou a fazer o seminário, sem ser, contudo, ordenado.  

Aos 20 anos, em 1962, mudou-se para a casa de uma tia aqui em Jacareí, onde começou a se interessar por advocacia. Em 1963, ingressou no curso de Direito da Fundação Valeparaibana de Ensino, atual UNIVAP, pensando em atuar em causas cíveis. Em 1965 começou a trabalhar como assistente de administração do Juízo de Direito de Jacareí. Formou-se em 1967 e inscreveu-se na OAB em julho de 1968. Foi um brilhante advogado mas continuava sonhando com o sacerdócio. 

No ano de 1972, a APAC foi criada em São José e originalmente era uma Pastoral Carcerária que significava “Amando o Próximo, Amarás a Cristo”. Convidado a ministrar um curso de crisma na cadeia pública de São José, Dr. Franz ficou impressionado e comovido com o sofrimento moral e espiritual dos detentos, passando a defendê-los nos tribunais. Posteriormente, foi um dos pioneiros da APAC, agora Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, sendo vice-presidente na gestão de Mário Ottoboni. Era exemplar sua dedicação no  contato e apoio aos presidiários, inclusive nos feriados e fins de semana, quando, dentro das cadeias, pregava a palavra de Deus, num trabalho voluntário de evangelização dos detentos. Defensor inconteste dos direitos humanos, teve uma vida repleta de ações em favor dos encarcerados pobres, principalmente em São José e Jacareí, ajudando-os na reintegração à sociedade.

Nesta dedicação e apoio aos presidiários, em 1981, durante uma rebelião deflagrada na Cadeia Pública de Jacareí, foi chamado, junto com Mário Ottoboni, para mediar negociações no motim. Dr. Mario conseguiu sair com dois reféns e alguns presidiários num carro oferecido pela Prefeitura. Na saída do outro automóvel, Franz se ofereceu para ficar no lugar de outro refém, um policial militar. Entretanto, a Belina que seria utilizada na fuga, foi atingida num enorme tiroteio. Assim, em 14 de fevereiro daquele ano, juntamente com cinco fugitivos, Franz de Castro, aos 38 anos, foi morto atingido por 30 tiros. As cenas da rebelião foram gravadas pela reportagem da Rede Globo e ganhou repercussão nacional. 

Conta-se que o Dr. Franz já previa sua morte pois um mês antes havia se despedido de seus amigos mais próximos, inclusive de sua mãe Dinorah. Teria inclusive solicitado a empregada doméstica da casa de sua tia Lygia, onde residia, que queria ser sepultado com o terno marrom.

A partir de sua morte, inúmeras homenagens se prestaram ao Dr. Franz. Seu nome foi dado às ruas em Jacareí, São José e Volta Redonda. Além disso, empresta seu nome à Casa de Custódia de Volta Redonda e a algumas pastorais e centros de reintegração social. A OAB/SP também lançou um prêmio que leva o nome do advogado e que laureia anualmente as personalidades que se destacam na defesa dos direitos humanos. Para contar sua história, uma revista, com 40 páginas e tiragem de 80 mil exemplares, intitulada “Franz de Castro Holzwarth – O Mártir da APAC e da Pastoral Penitenciária”, foi lançada pela Diocese de São José dos Campos. Um livro, “O Mártir do Cárcere”, de autoria de seu amigo Mário Ottoboni, também presta uma homenagem ao companheiro, com direitos autorais destinados à causa de sua beatificação. Até um site foi lançado:  http://www.franzdecastro.com.br

CANONIZAÇÃO

Em 06 de março de 2009, a Diocese de São José dos Campos realizou a abertura do Processo da Causa de Canonização do Dr. Franz, instalando o Tribunal Diocesano do Processo e a Comissão Histórica que, após investigar o martírio e a vida do advogado, gerou uma série de documentos que foram encaminhados, em 2010, para a Congregação da Causa dos Santos, no Vaticano. A abertura oficial do processo deu-se em 2011, quando Franz de Castro foi declarado “Servo de Deus”.

De acordo com os trâmites, os restos mortais do Dr. Franz, sepultados no cemitério Santa Rosa, em Barra do Piraí, tiveram que ser exumados. A Igreja exige que os restos mortais de postulantes a santos sejam colocados em locais de fácil acesso à população. Como o processo de sua canonização foi aberto pela Diocese de São José dos Campos, os ossos foram entronizados na Igreja Matriz da cidade vizinha.  

O processo de beatificação se dará por martírio (quando o candidato passa por sofrimento extremo e chega a perder a vida no testemunho da palavra de Cristo) e não por milagres. Entretanto, há quem garanta que o servo Holzwarth já os faça, apesar de sua comprovação não ser necessária. Na conclusão do processo um milagre é exigido para a canonização. Este tem que ter ocorrido após a beatificação. Comprovado este milagre o beato é canonizado e o novo Santo passa a ser cultuado universalmente. 
ORAÇÃO

Senhor, nosso Deus, que inspirastes o vosso servo Franz de Castro Holzwarth a uma total dedicação de amor aos encarcerados, ao ponto de derramar o próprio sangue em favor da causa dos mesmos, nós vos pedimos que, se for de vossa vontade, Franz de Castro seja um dia glorificado pela vossa Igreja e, por sua intercessão, possamos receber a graça de que tanto precisamos e que vos pedimos com fé... (pedir a graça). Fortalecei-nos, ó Senhor, na vivência do amor ao próximo e abençoai a todos que se dedicam à Pastoral Carcerária. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.